Jesus, porém, voltou-se e, fitando os seus discípulos, repreendeu a Pedro e disse: Arreda, Satanás! Porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos ho-mens. Marcos 8:33. Saber discernir entre o cristianismo e o humanismo é básico para a saúde emocional e para o pleno desenvolvimento espiritual dos crentes. As semelhanças são táticas da aparência enganadora e a camuflagem torna o caçador invisível à presa. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. 2 Coríntios 11:14. O que é o cristianismo? O que faz o cristianismo distinto do humanismo? O cristianismo aborda a vida de Cristo e sua vinda ao mundo, bem como todas as suas implicações. O humanismo envolve apenas o ser humano com todas as suas complicações. Enquanto o cristianismo revela Cristo se esvaziando de sua glória divina, o humanismo propõe a glorificação do homem em um formato divinizado. O centro do cristianismo é Deus como homem. O cerne do humanismo é o homem como se fosse deus. A especialidade do inferno é a fraude e a carência humana é a porta de entrada desse ardil. O predador seleciona sempre a presa fraca ou ferida para acossar e a reli-gião busca as pessoas mais carentes para enlaçar. Todos nós somos de algum modo carentes emocionais, porém os mais necessitados são os mais atacados pelos caçado-res de almas. Jesus mostrou que Satanás cogita das coisas dos homens e nunca das coisas de Deus. O humanismo é perito em conquistar pessoas com o enredamento dos cuidados e atenções especiais. A valorização do ego é a isca de maior importância para pescar uma alma carente, por isso a religião investe pesado na contratação de babás para pa-jear os desprovidos de maior percepção, a fim de torná-los como guris subservientes e imaturos. O amor ágape nunca massageia o ego nem superprotege a alma carente. O cristão não escolhe o objeto do seu amor, tampouco ama alguém movido por qualquer outra condição que não seja o próprio amor. Por outro lado, a filantropia humanista re-quer sempre uma contrapartida e descarta todos aqueles que não rendem tributos ou galardões para os seus promotores. Você sabe que uma pessoa é humanista quando o seu discurso visa cativar as pessoas com lisonjas pegajosas e ladinas cortesias. O cristão é uma pessoa tratável, mas não é viscosa. É amável, mas não vive e-logiando a qualquer custo. É gentil, embora nunca use o jogo jeitoso da sedução. A marca do relacionamento cristão é a conveniência respeitosa de um amor sincero e sem contrapeso. Um cristão fidedigno deve incentivar o irmão, mas nunca lisonjear. A lisonja é moeda podre para escravizar as pessoas mais carentes. O amor do cristão não negocia afetos. No evangelho não existe a Casa Grande e a senzala. A assembléia dos santos é composta de servos de Cristo que servem uns aos outros com amor, mas jamais escravos bajuladores indenizando com capachismo as migalhas de uma caridade estabelecida. Nunca ouvi falar de cristãos verdadeiros que fossem canonizadores de santos de barro. O cristianismo não aceita incensório de personagens. O culto cristão é totalmente centralizado na Trindade. Deus, e somente Deus, é o único motivo e finalidade da adoração. Na Igreja de Cristo não há lugar para persona-lidades ilustres, muito menos passarela para exibição dos atributos da carne. A celebra-ção do evangelho focaliza o Cordeiro como o único dignitário de toda a contrição, elimi-nando por completo o artista que busca aplausos da platéia. Quando Satanás propôs os reinos deste mundo em troca da adoração, então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Sa-tanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto. Mateus 4:10. O humanismo cultua a cultura humana, e mediante atrativos fascinantes alicia os incautos para o seu espetáculo de entretenimento. O show humanista é uma atração chamativa que aprisiona os adeptos através dos efeitos especiais e da arenga de lam-bidela, pagando barato por alguém que foi comprado por um alto preço. O mercado destes escravos da xepa, negociados pela bagatela de um zelo calculista, é cruelmente satânico. Os inimigos da cruz de Cristo são mensageiros perversos que se apresentam disfarçados de ovelhas para abocanhar os carneirinhos carentes com o seu estilo hu-manista. Vejam como Paulo os descreve: Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas. Fi-lipenses 3:18-19. O apóstolo disse que eles andam entre os santos, mas são hostis à obra da cruz. Ainda que falem com o palavreado do evangelho não são evangélicos de verdade. Dizem que o hábito faz o monge, mas o discurso ortodoxo não transforma alguém num servo autêntico de Jesus Cristo. Além disso, o deus desta gente é o mesmo de Esaú que permitiu a venda dos valores espirituais por um prato de lentilhas. Um sujeito em-panturrado com o deus da pança é uma caricatura barata da criação e uma figura dra-mática e bizarra do Tártaro. Não pode haver ninguém mais lastimável do que um vassa-lo das vísceras. O destino é a perdição, o deus é o intestino e a glória é a vileza, uma vez que só se interessam com as coisas deste mundo. A preocupação do humanismo é materialis-ta, só se interessando pelas coisas terrenas. Pedro nos chama a atenção para esses inventivos que vêm dissimulados de catedráticos: Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de re-negarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repenti-na destruição. 2 Pedro 2:1. A infiltração de uma mentalidade apática diante do senhorio de Cristo é o ataque mais sutil com que o humanismo investe contra a mente dos cristãos. Na igreja de Lao-dicéia o Senhor Jesus está do lado de fora, não obstante, lá dentro, as coisas estarem acontecendo com o maior desembaraço. O Senhor da Igreja está no exterior, mas no interior não se percebe a sua falta. A igreja de Cristo, sem Cristo é o disparate do hu-manista. A humildade da fé cristã reconhece que o ser humano é apenas húmus, isto é, todo aquele que crê em Cristo não passa de pó em pé dependente por inteiro da sufici-ência de Cristo, mas a modéstia humanista é um expediente do brio da imagem narcí-sea. Muita gente se finge de humilde para receber os confetes por sua pose despojada e modesta. Mas, como mostrou Roy Hession, basta uma decepção ou destituição para que a nossa humildade se transfigure em amargura e o seu veneno intoxique quem es-tiver por perto. Outro ponto que deixa clara a diferença entre o cristianismo e o humanismo é a excussão de tarefas. O fazer cristão tem apenas Deus como observador, enquanto o humanista gosta de exibir no palco o seu papel para uma platéia ávida por shows e vici-ada em prestígio. Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pe-los homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, po-rém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recom-pensará. Mateus 6:2-4. Além disso, a glória também é um marco nos limites destes dois temas. No cris-tianismo, a glória pertence exclusivamente ao Cordeiro, e ninguém pode confiscá-la sem seqüelas terríveis no caráter. No humanismo religioso há uma falação muito ex-pressiva que propõe glorificar a Deus, mas em última análise essa glória é para as per-sonagens da fala. Todavia, breve e patética é a glória que o homem dá ao seu seme-lhante ou mesmo quando recebe. Todo aquele que busca holofotes para sua imagem ou lugar de destaque para sua biografia nunca recebeu os sinais dos cravos em sua experiência de fé. O humanismo é uma proposta da serpente para levar o ser humano ao status de Deus. O cristianismo é um projeto de Deus para esvaziar-se a si mesmo até a estatura de homem, a fim de salvar a humanidade de sua teomania. Enquanto o humanismo se preocupa em elevar o homem com a presunção de divindade até ao trono da glória, o cristianismo traz o Deus exaltado ao patamar da cruz. A mensagem cristã é completa-mente avessa à sugestão humanista, pois sem a cruz na experiência a fé cristã é falsa. Tudo aquilo que minimiza a supremacia de Cristo na experiência do crente faz parte dessa tese perversa do humanismo religioso. Davi era o rei de Israel e tipologica-mente representava a Cristo como Rei. Absalão era o seu filho rebelde que roubava o coração do povo com a sua estratégia de agrado. Ele procurava conquistar a alma dos israelitas com a sua política humanista de cuidados especiais, suprindo com amabilida-de paternalista a carência emocional daqueles que, na verdade, careciam sim, da liber-tação plena do seu egoísmo. O ser humano precisa realmente é de conversão radical e nunca de conformação com uma postura de vítima. O cristianismo não promete um vôo tranqüilo e sem turbulências, ainda que as-segure uma aterrissagem firme e confortável. Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo. João 16:33. O humanismo, porém, procura remediar as turbulências do vôo dopando os passageiros com pílulas douradas e acariciando o ego dos carentes para que se sintam bem neste mundo de fantasias. Embora o cristianismo seja profundamente humano, ele não é humanista. Con-quanto o humanismo demonstre alguma aparência cristã, ele não tem nada a ver com o cristianismo. O cristianismo gera quebrantamento e humilhação no íntimo do nosso ser. O humanismo produz uma política de manipulação que sempre resulta em arrogância no sucesso, ironia no processo, depressão no recesso e amargura com o fracasso. Segundo Jesus, Satanás é o técnico deste time do humanismo. A sua estratégia é a valorização da humanidade sob a presunção de torná-la olímpica no panteão de um semideus. Mas, se alguém quer ser de fato um discípulo de Jesus Cristo, não há qual-quer alternativa ou atalho: Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23. A fé cristã requer esvazi-amento estreme ou negação de si mesmo, co-crucificação diuturna e perseverança em seguir apenas a Cristo como Senhor. Louvado seja o Senhor da Igreja. Amém.
Pr Jorge de O. Bezerra Teologo, escritor e conferencista Pastor da Igreja Batista Brasileira em Coral Springs
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